Categoria: Artigos
Data: 28/08/2023
Um legado de lutas e bênçãos

Quarenta dias de prisão o aguardavam no navio. Experiência extenuante. Estressante. A acomodação do jovem Ashbel a bordo do Bashee não foi exatamente uma Classe Econômica. Consciente de sua missão, porém, ele não vacilou. Sentia estar cruzando o seu Rubicão, isto é iniciando uma viagem sem volta.

Grandes vagas o faziam cambalear no convés. Ele preferia estar no lombo de um “cavalo trotão”. Antevia com desagrado seis semanas naquela agitação sem fim. Mas nem sempre foi desse modo. Noutros dias o mar estava calmo e o vento favorável, o que era “beleza para os olhos, música para os ouvidos e a excitação do movimento”. O navio avançava a todo pano com beleza e vigor. Claro que havia também as pavorosas calmarias, ventos abafados e o monótono sentimento de que iam a lugar nenhum.

Com ou sem ventos, Ashbel não perdeu a oportunidade de comunicar o evangelho em proveitosas classes de estudo bíblico. “Muito me agradou mostrar àqueles pobres e negligenciados marinheiros o caminho da vida.” E não deixou de avaliar o método empregado: “Acredito que a Escola Dominical no próprio alojamento deles, com frequência voluntária e liberdade para se expressarem, é melhor que um culto mais formal”.

Ashbel registrou o prazer que teve por esperar e finalmente ver o Cruzeiro do Sul. “É o símbolo da minha missão”, anotou ele. “Espero que seja um penhor do seu sucesso.” E sua confiança lhe deu tranquilidade mesmo em momento de grande perigo, quando o Banshee quase foi abalroado por outra embarcação: “(...) desde o princípio entreguei meus caminhos a Deus e dei-lhe a direção de minha vida; desde então o sentimento de segurança jamais me abandonou”.

A esperada visão de seu destino emocionou o jovem a ponto de empalidecer o que experimentara até ali. “É um lugar lindo, o mais singular e impressionante que jamais vi. Nunca teria imaginado tal porto, com beleza sublime (...) Os sentimentos predominantes eram o contentamento pelo final feliz de uma longa viagem e o temor pela grande responsabilidade e pelas dificuldades do trabalho que esperava por mim. Minhas razões para a alegria são fáceis de entender, mas a incerteza do futuro pesa de modo solene e temível, a ponto de moderar as expressões de contentamento.”

Doze de agosto de 1859. Ponto marcante em uma jornada conduzida por Deus, que começou com a dedicação de Ashbel ao serviço do Senhor feita pelos seus pais no seu nascimento. A preparação incluiu o crescimento em uma família temente a Deus e dedicada aos estudos. As citações que Ashbel faz em seu Diário dão conta de um leitor voraz. Vieram depois os anos de busca espiritual nas reuniões avivalistas. Seus registros revelam alguém que não ficaria satisfeito apenas com emoções, mas que decidira confiar na Palavra. Sua profissão de fé o mostrou decidido a honrar o compromisso assumido pelos pais no seu nascimento.
Agora, chegando ao Brasil, ele experimentava o conflito entre alegria pela chegada — incluindo o indescritível encanto com a exuberância da Mata Atlântica — e o peso das incertezas quanto ao futuro.

Conquanto o ministério de Ashbel Green Simonton tenha sido frutífero, não o foi sem o fardo dos embates constantes. Foi em meio ao calor de muitas lutas que bênçãos incontáveis foram colhidas e que um legado duradouro foi deixado à IPB e ao Brasil.

Graças a Deus que levanta, prepara e sustenta servos fieis.


Autor: Jornal Brasil Presbiteriano   |   Visualizações: 632 pessoas
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